Coluninha indiscreta

Por Carlos Pinheiro! O poeta no tamborete.

Genésio Guedes tinha a voz miudinha, sussurrante, carinhosa e, na velocidade da luz, aplicava injeção que “Nem doeu”, como dizia a criança antes apavorada com medo da torturante agulha que o farmacêutico manobrava com habilidade malabarista. Certa feita, mulher com o semblante carregado pela humilhação do pedir, por não ter dinheiro para pagar o remédio para o filho doente nos braços, teve gratuitamente o tratamento e ainda levou uns trocados do comerciante para a compra do pão. Era o humanista Genésio Guedes na manifestação da solidariedade humana sem holofotes. Perguntado como distinguia o miserável do picareta, afirmou com a tranquilidade do homem conhecedor do ser humano.
– Pelos pés. – afirmou com segurança.

  • Como, pelos pés? – perguntei.
  • O pobre não cuida dos pés, usa sandália com o calcanhar faltando pedaço e tem um prego como cadeado na tira de sustentação. Era o Genésio Guedes sociólogo, conhecedor da origem do homem em sua mais profunda carência. E o picareta, como identificar? Genésio esboçava sorriso limitado e mandava deixar pra lá, não valia a pena falar do mau caráter, do esperto, e mudava de assunto. Genésio Guedes só aumentava a voz para enaltecer o Central de seu coração. Certa vez, chegando à calçada da farmácia e, de longe, presenciando os centralinos fanáticos Milton Figueiredo e Souza Pepeu conversando com ele, não foi difícil deduzir que falavam do Central. Cheguei provocando. Afinal, não provocar os amigos torna a amizade enfadonha, monótona, igual dançar com irmã.
    • Bom dia, senhores masoquistas.
      – Por que masoquistas? – perguntaram quase numa mesma voz.
  • Por que insistir, conversar e ter esperança de vitória com o Central é puro masoquismo. Dito isso, sai para não ser linchado pelo grupo ou jogado na avenida, embaixo das rodas dos carros. Foi a primeira e única vez que Genésio subiu o tom da voz. Central campeão! – gritou. Era o Genésio Guedes centralino, torcedor apaixonado pelo time de futebol de Caruaru. Mas, masoquista. Embora seja, também, centralino, prefiro não revelar para conservar o direito à provocação. Com 82 anos de vida, Genésio Guedes, vítima do maldito cigarro, faleceu nesta semana. Autor de mais de duzentas músicas catalogadas, o compositor fazia o que mais gostava: escrever poesias e, às vezes, era visto balbuciando músicas, assobiando melodias e gravando-as com Israel Filho, Azulão, Jorge de Altinho, Joana Angélica, Camarão, Jacinto Silva, dentre outros. Era Genésio Guedes compositor, artista herdeiro do dom do pai, que tocava acordeom e violão. “Meu amor me deixou/ aonde eu vou parar/ em barra dos coqueiros, lá no balanço do mar”. Música de Genésico com Djalma da Hi-Fi e Azulão. Por tanto fazer pelo povo, foi empurrado pelos amigos para a política e se elegeu vereador por três vezes em Caruaru. De paletó e gravatá, que detestava, foi um vereador assustado com as encrencas políticas na Câmara. “Dá pra mim não. Brigam muito e fazem pouco pelo povo”, disse certa vez em cochicho. E todo o salário era arrancado pelos mais carentes, que sabiam que pedir a ele era receber sem cobrança de retorno. E nesta passagem política encontrei-o sentado num tamborete, sem encosto nem apoio para os braços, recostado à parede do Central em sua farmácia, em dia de eleição.
    • Oxe, Genésio. Hoje é dia de eleição, estão todos os candidatos fazendo boca de urna cabalando votos e você aqui, sentado num tamborete na maior tranquilidade.
    • Foram os amigos que disseram que eu posso ser vereador, então eles que se movimentem, pois não vou sujar a cidade com santinho com minha cara jogada ao chão nem fazer boca de urna, que é proibido.
      Dito isso, entramos na farmácia para o aviamento de um remédio. Era o Genésio político decente, cumpridor das leis, sendo eleito para sua primeira legislatura.
      “Eu vi tropé de cavalo/Eu vi cancela bater/Meu lindo amor é Iaiá/Iaiá é o meu bem querer.
      Adeus, poeta!
      Podia não!

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