Coluninha indiscreta! Por Carlos Pinheiro “A moça da capital”

A decepção de Ruiva não era só pelo término do namoro, mas pelo motivo. O namorado terminara relacionamento longevo por estar apaixonado pelo trapézio. Ela até pensou ser outra mulher, mais bela e inteligente, mas, quando o rapaz afirmou sonho maior ser trapezista em circo, ela desconfiou, e teve certeza quando conheceu o professor trapezista, amigo de seu noivo: homem musculoso vestindo camiseta regata, com os bíceps parecendo dois tijolos, careca por exigência da profissão, lembrando uma tartaruga albina. Ruiva, liberal na teoria, se decepcionou na prática. Afinal, a teoria geralmente é negada pela prática.


Contudo, além do nariz arrebitado por ser moça da capital, linda e jovem, era defensora do castrador politicamente correto, quando não se permite olhar com desdém um abestalhado, comentar com riso e criticar apontando alguém pelo jeito esquisito de ser. Isso gera a seriedade e, sérios, foram todos os homens que promoveram guerras e assassinatos em quantidade monstruosa e desumana.


A moça da capital, abandonada, ainda argumentou ser loucura o rapaz desistir da faculdade que cursavam juntos, renunciando à medicina no penúltimo período, além de pôr fim a um namoro já de alguns anos. Mas, em vão. Espiando pela janela, viu o rapaz e o professor de trapézio no carro com largo sorriso nos lábios. Foi aí que ela percebeu existir algo mais interessante que o picadeiro de circo. E ficou sorumbática, amuada, parecendo cadela abandona em rua deserta por proprietário sem coração.

No dia seguinte, Ruiva, mulher de muita beleza, tristonha e sentindo-se desprezada, juntou roupas no matulão com o brasão da escola e rumou para a estação ferroviária com destino à casa de colega de faculdade residente em Caruaru, e que vivia cantando loas e boas sobre o São João na cidade, onde quem chega nunca mais quer sair, prisioneiro que se torna do carinho e aconchego da gente de lá. E foi de trem para mastigar a decepção, sentando-se à janela, deslumbrando a paisagem rural. “O verde acalma os ânimos e junta os pedaços do coração quando partido por desilusão amorosa”. – disse sua mãe com vocação pintora de aquarelas vendidas em feiras do interior.


Naquele sábado, encontrou na estação apenas o Trem do Forró, e nele se acomodou, estranhando que os passageiros vindos de Caruaru em ônibus, pela manhã cedinho, estavam de chapéu de palha, as mulheres em vestidos com estampas coloridas de fogueiras, balões, quadrilha. E todos mais ou menos já bicados com latinhas de cerveja à mão e muito alegres, dançando no pátio da estação ao som de bandinha de pífano que viera do País de Caruaru para alegrar a viagem de volta, em trem, daquela gente feliz até a Capital do Forró. Em cada vagão, uma bandinha pé-de-serra composta pelo zabumba, triângulo e sanfona sufocava o barulho da locomotiva Maria Fumaça que chacoalhava os ferros como se fosse instrumento musical, e fagulhas do atrito das rodas com os trilhos lembravam chuvinhas acesas por crianças no escuro de um canto de sala em noite de festa.


Quando o trem apitou, dando sinal de partida, o maquinista já fora bicado pelos passageiros. “Não posso. Eu conduzo o trem”, – dizia, mas bebia uns golinhos. “Não se preocupe. O trem sabe o caminho”- diziam os pervertidos da festa. E as lágrimas, até então contidas da moça da capital, escorreram pelo rosto da bela mulher querendo expulsar a tristeza e em divergência aos gritos e apupos dos passageiros, que bebiam e dançavam nos vagões ao som das quadrilhas de Gonzaga. Fogos espocaram dando início à maravilhosa viagem cortando cidades camufladas em canaviais de história escravocrata e lutas libertárias, com invasores às terras pernambucanas dos altos coqueiros; túneis escuros pintalgando a tristeza sombria da moça, e pontes magrelas parecendo gente famélica, assustando os iniciados na viagem por trem, foram cruzados até o paraíso de nome Caruaru.


Na íngreme subida das Serras das Russas, nas escarpas assimétricas, a locomotiva ameaçou estancar, faltando forças para ultrapassar o grande obstáculo natural. Foi aí que Bernardo, o Bel contabilista e também marcador de quadrilhas, usou de sua autoridade junina, determinando que os passageiros dançassem um xote, dando umbigadas para frente, empurrando o trem com a força de corpos bailarinos. E não é que deu certo. O maquinista, então, aplacou o apito do trem com insistência agônica de felicidade, desceu a serra zunindo num xap, xap, xap veloz com destino a Caruaru. E os gritos de vitória se misturavam ao forró pegado, zabumbado, ensurdecedor no ritmo gostoso da música do Assisão.


Contudo, a moça chorava a cada xote, a cada baião que a fazia relembrar do homem que ela pensou ser, e que não era. Mas, mesmo assim, criara admiração pelo excelente aluno em medicina. E assim, a viagem transcorreu entre o choro de uma passageira infeliz e a alegria de centenas de pessoas. Até que o maquinista segurou no apito do trem, Piuuuiiiii, Piuuuiiii, Piuuiiii, quando a moça despertou do torpor, colocou a cabeça pela janela e viu a estação de Caruaru com pessoas sorridentes, acenando com bandeirolas coloridas, crianças correndo ao lado do trem, fogos sufocando o silencio, bacamarteiros detonando riúnas parecendo furar o chão, numa contagiante alegria, quando o contágio humano se mistura em dança, beijos, abraços, choros de emoção ao ver o trem, misturado às lágrimas da moça decepcionada, triste. Registrando a chegada do Trem do Forró, o fotógrafo Preggo Sá, ensinando a seu irmão Carlos Sá, o melhor ângulo da heroica locomotiva de fogo à lenha.


Ruiva desceu no trem por derradeira, dando tempo enxugar as lágrimas, recompor a maquiagem, pentear os cabelos loiros, parecendo espiga de milho antes de ir à brasa da fogueira. Cabisbaixa, encontrou a colega e amiga da escola, gritando por ela de braços abertos:


– Ô, Mulé, cadê tu? Pensei que tinhas desistido. Vem-te e vamos nos misturar na quadrilha do povo onde mora a alegria, e desfaz essa cara de viúva de homem safado. – a moça da capital até que esbouçou sorriso pela ironia da amiga, e foram para o meio do povo. O trem parara na estação, enquanto a meninada entrava nos vagões parados, acenando das janelas em seus sonhos de viagem sem movimento, com o mesmo cenário, mas na alegria juvenil, estar no trem era assunto para dias contados em rodas de conversa na beirada do meio fio na Rua Tiradentes, onde moravam. A fantasia é do tamanho que a gente acredita ser, e podemos até exagerar nos feitos, ninguém vai conferir, mesmo.


Ruiva, esmagada pelo peso da decepção, não balançava o corpo nem ao som da Bandinha de Pífano, mesmo cutucada pela amiga.
– Mulé, te anima! Tu vai ficar feito posto sem luminária, é? – e empurrou a amiga para o meio do povo, mas parada estava, parada ficou. Até que o final da tarde chegou, o trem esfriou, parou de apitar, as pessoas foram deixando a estação rumando a casa para o banho, o café com canjica, pamonha, queijo coalho, tapioca, tareco, bolo bem fofinho, mugunzá e milho cozinhado na panela de pressão. E, de fundo, música do caruaruense Israel Filho embalando o jantar festivo.


– À noite, ante de ir ao pátio assistir Petrúcio Amorim, a gente vai esquentar aqui em casa. Vai ter um forrozinho, uns bebes e tu tiras essa cara de enterro e entra no clima, vem muita gente alegre e bonita pra cá. Esquece aquele traste, mulé. – Ruiva esboçou sorrir, parecendo mais uma careta de quem está com dor de barriga que feliz. Mesmo assim tomou banho, se produziu e desceu para o jantar como uma linda mulher que era. Os homens da casa pararam de comer e, de boca aberta, a devoraram com imaginativa volúpia. Parecia caminhar sem pisar no chão, uma deusa em saia longa, lenço na cabeça, batom brilhante, brincos espanholados. Uma beleza a se misturar com as estrelas do céu de Caruaru, que naquela noite se mostravam com tanta beleza. No terreiro da casa, a fogueira já ardia, e ia queimar até o amanhecer, pois fora madeirada com esmero para demorar muito e apagar com a chegada do Sol, mesmo assim deixando brasas para adivinhações de vida ou morte na água da bacia de alguidar.


Os homens e as crianças afastaram os móveis da sala para um canto, só ficando na parede pintura do caruaruense Fernando Florêncio, quando se admirava um trem embaçado pela fumaça do amanhecer no cais do porto; tapetes foram enrolados e até os retratos de família foram removidos dando lugar a bandeirolas, balões cobrindo lâmpadas, castiçais, respeitando-se o santuário de nossa Senhora Aparecida, oratório da dona da casa.
O cachorro Dogback e o papagaio Baco, percebendo ser noite de muito barulho, se refugiaram no quarto de hóspedes reservado à Ruiva, e entre o guarda roupa e a parede ficaram amoados, temendo os espocar dolorosos dos fogos.


A radiola Três em Um da Sharp estava zunindo de brilhos, discos de Gonzaga, do Tio Nordestino, do Assisão empilhados, ofertavam as escolhas musicais para aquela noite. Ouviu-se espocar de fogos intermitentes, chamando os convidados para a festa familiar, e não se sabia se era àquela casa, ou para a casa ao lado. Afinal, todas as casas exibiam sua festa, sua fogueira, seus convidados. Caruaru pegava fogo de alegria, era festa de coração, de amor, de confraternização. De tão contagiante, a festa de São João deveria ser coroada com presente, como se faz na banzada festa sepulcral do Natal. Os sobrinhos foram os primeiros a chegar. Pra comer e beber de graça nem convite precisam ter, mas são eles que fazem a alegria e geram curiosidades. Tinha um gordinho que bebia ao mesmo tempo cachaça, uísque e cerveja. Colocava um copo ao lado do outro, bebendo um gole de cada vez.


– Onde já se viu isso? Beber nessa misturada toda? – reclamava uma tia encalhada e infeliz, mas uma segunda mãe dos adolescentes. Os amigos foram chegando, apresentados à Ruiva que se mantinha em seu canto junto à mesa de comidas e bebidas. Sem alegria, com tristeza num ambiente muito alegre.


Foi aí que entrou, com cara de convencido, o Diamante Negro, o Chocolate para algumas. Um sujeito amigo da família, exemplar seleto de beleza e alegria. Cumprimentou a todos e ignorou Ruiva, pois já soubera que uma mulher muito bela e muito besta, de nariz arrebitado, vinda da capital, estava no recinto. Ruiva estranhou que o rapaz não a tivesse notado, afinal era ela, Ruiva, a bela. E Chocolate dançou com todas as moças da festa, menos com Ruiva. Até que pararam o som da radiola para a entrada de bandinha pé-de-serra com os meninos da escola e o vocalista, quem era? O Chocolate. “Eu canto e encanto”, e aí fingiu ter notado a presença de Ruiva no exato momento que cantava o Meu Cenário, cantando os maravilhosos versos olhando nos olhos da moça que ensaiou um leve sorriso. E quando Chocolate deixou o microfone, foi direto até ela convidando-a para dançar com gesto respeitoso, curvando-se como se diante de uma princesa. Ruiva adorou e dançaram agarradinhos.
– Pensei que você não ia me notar. – disse Ruiva, baixinho, com dengo de mulher rejeitada. Chocolate se desculpou, dizendo que são tantos amigos que não deu pra notar a estonteante beleza da moça da capital. Daí rolaram outros xotes, a conversa foi acarinhando feito cachorro no colo de menina, e na respiração ofegante trocaram o primeiro beijo, até que subiram ao quarto de Ruiva para ela se trocar e irem ao Pátio do Forró.
Ruiva, já sorrindo, não resistiu as investidas do negão e naquele entra não entra acabou entrando nos aposentos da ilustre visitante. No quarto, Chocolate lhe tirou a roupa, percebendo a beleza de corpo escultural coberto por pequenas manchas ruivas, e com a suavidade da língua beijou uma por uma, todas elas, e Ruiva começou a morder os lábios, umedecer os olhos, a gemer baixinho, até que Chocolate a posicionou na esquina da cama e a fez uivar qual loba das estepes russas que não foram ouvidos por todos, por conta do som do forró pesado. Mas, o cachorro e o papagaio ouviram e viram quando Chocolate retirou a camisinha que usara e a jogara num cesto num canto do quarto. Foi aí que o papagaio falou baixinho no ouvido do cachorro:
– Eu vim de um puteiro… Já presenciei todo tipo de foda… Mas igual a essa que arranca o couro da rola, é a primeira vez. – dito isso, saiu voando pela janela, o cachorro, pra não ficar sozinho e ser testemunha daquele ato esquisito, pulou também, percebendo tardiamente que cachorro não voa. Por sorte caiu na piscina da casa e não morreu.
O casal desceu e foi ao Pátio do Forró. Papearam com o engenheiro e historiador Hélio Florêncio e o advogado Milton Figueiredo, que falavam com o amigo Diamante Negro, mas não tiravam os olhos dos belos peitos pintadinhos de Ruiva que fingia não notar, mas adorava se sentir desejada. Pararam pra tomar lanche na Barraca de Hambúrguer de Edgar e Rafaela, provocando no barraqueiro o descuido de abrir a cerveja tão concentrado em Ruiva que quebrou o gargalo. Sorriu amarelo e foi buscar outra garrafa.
Por inexplicável tramoia do destino, Ruiva, de mãos entrelaçadas com Chocolate, sorridente, falante, jogando os cabelos ao vento, desfilando excesso de beleza, e muito feliz, deu de se encontra com o casal de trapezistas que também viera ao São João de Caruaru. Com altivez e segurança, Ruiva passou por eles sem cumprimenta-los, com total indiferença, parecendo não os conhecer, desprezando-os, aplicando os conselhos do filósofo sueco dos aveloses, Solrac Oriehnip: “O ódio não machuca tanto uma pessoa quanto a indiferença de sua existência”.
Vê se pode?!

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