Coluninha indiscreta. Por Carlos Pinheiro! “No meio da sala”

O casal não se conhecia até o confinamento compulsório da quarentena viral, nem mesmo dos filhos sabia gostos e desgostos. A filha menstruara pela primeira vez e a mãe só tomou conhecimento quando encontrou. Anticoncepcional em seu quarto, e o pai só soube que o filho dava “tapinha” no cigarro proibido quando reparou casualmente na cor de seus olhos, e não era conjuntivite. E, o casal, não conhecia a interação sexual, que não praticava por força da quase abstinência.

Professora em duas escolas na rede particular, ganhava, por hora, cinco vezes menos do que ganha um lavador de carros no centro da cidade, com a diferença que o lavador usa a mesma roupa por semanas, não se perfuma nem tem paciência para orientar dezenas de alunos numa sala de aula. Ele, vendedor de papeis, adquirira até a capacidade de conhecer seus clientes psicologicamente.

Saíam de casa às 7h, deixavam os filhos adolescentes na escola e seguiam seus caminhos ao trabalho. Em casa, todas as noites, a professora vira empregada doméstica sem remuneração e se vira em lavar, passar, cozinhar, ajudar nas tarefas escolares e, no final de semana, ainda servir aos desejos do marido, regados à taça de vinho, enquanto a sogra dele e as crianças dormem. E foi aqui que se deu o maior Quid pro quo.

As crianças já se recolheram, a sogra também, o casal ficou na sala sorvendo vinho com fondue de queijo sobre espiriteira, à meia luz, som baixinho na vitrola. Beijinho vai beijinho vem, alisamentos de cabelos, olhos nos olhos, bocas com bocas e roupas jogadas ao chão. profundamente concentrados, não perceberam a sombra de um vulto que se postava na entrada do corredor de onde tinha visão privilegiada de toda cena picante do casal. Era a sogra, que ouvira um barulho e saíra do quarto para a eterna vigilância.

A Velha era profundamente silenciosa, vez por outra trocava umas poucas palavras com a filha, e nada mais. Contudo, após o jantar, sentava-se na sala próxima ao genro para ouvir o jornal da tevê e, todas as vezes que se anunciava mais uma operação da Lavajato, a Velha virava o rosto em direção ao genro e o fitava sem muita clareza no olhar. E isso foi se repetindo: falou Lavajato, a velhinha virava o rosto e encarava o genro, e isso começou a encomendá-lo, visto que nem deputado era para a Velha o olhar com suspeição. Mas, em nome da paz familiar, relevou.

E, agora, no meio da sala, a sogra assistia à cena animalesca do ato sexual com gritos abafados, bocas entreabertas, gritinhos de dor e prazer, naquele momento que homem e mulher mais se parecem com os animais irracionais. “Nunca imaginei que minha filha fizesse uma coisa dessas” – pensou a Velha com reprovação ou por não ter praticado no passado.

Desta feita, quem virou o rosto para olhar foi o genro que, delicadamente, entortou a cabeça da mulher na mesma direção. A Velha, percebendo-se descoberta, retornou ao seu quarto afirmando com total segurança:

– Desculpem. Pensei ser a Polícia Federal prendendo você, meu genro.
E naquele resto de noite caliente, o vinho esquentou e os cachorrinhos não engataram mais.
Vê se pode?!

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