Coluninha Indiscreta, por Carlos Pinheiro: Sutiã Quengas-de-coco.

Paulinho Bolinho e Guaraná, assim alcunhado por ser figura emblemática no cenário social de Caruaru, mais magro que um dia de fome, fumante inveterado, dançarino invejável, carregava consigo, além da gentileza, a lábia capaz de vender crucifixo ao Conde Drácula e, pela conversação, estava presente em todas as festas particulares e públicas sem a necessidade capitalista de ter que pagar entrada ou ser convidado. E onde ocorresse “assustado” lá estava ele, hoje, encantado, amigo.
Da tenda localizada nas além-nuvens, Paulinho despertou o amigo Aloysio Taiada para um passeio pela Caruaru sem arranha-céus nem antenas de comunicação enfeiando o Monte do Bom Jesus.
– Vamos retornar a Caruaru dos idos 1970, e garanto que vamos nos divertir – disse o gentil amigo ao companheiro de cigarros e Run Montilla com Coca-Cola e limão. E, assim combinado, aterrissaram na Rua 27 de Janeiro numa festa denominada “Assustado”, rebeldia de jovens conspiradores do domínio exclusivo e aristocrático dos bailes sociais, decidindo fazer festa dançante em residências familiares ao som gerado por vitrolas ABC em discos long-play, tendo-se o cuidado de arrastar para um canto da sala a tevê com tubo, em preto e branco. Os participantes traziam pratinhos para os “comes” de bolinhos de batata com carne ou queijo, que depois foi chamado de coxinhas, pastéis de carne moída ou de presunto, o “Três Em Um”, que consistia num palito espetando pedaço de queijo coalho, outro de salsicha e azeitona. A bebida era um ponche feito com casca de laranja cravo, misturado levemente com cachaça e pedaços de maçãs boiando.
Os convidados e os penetras iam chegando, sendo recebidos pela morena bonita e excelente dançarina Marleine Albuquerque, que tomara à frente da difícil empreitada de convencer comemorar os 15 anos de amiga em festa de “Assustado”. Foi difícil convencer a mãe da aniversariante e batalha dobrar o pai a permitir que desconhecidos fizessem de sua casa lugar de dança, que ele logo imaginou o espaço do cabaré com folhas de eucalipto pelo chão para perfumar o ambiente. Mas cedeu, desde que ficasse sentado em sua poltrona de pés magros e abertos, vigiando o comportamento da rapaziada. E com luz sem papel celofane cobrindo a lâmpada para escurecer o ambiente e camuflar o sarro dos adolescentes.
A festa ia animada com Paulo Sérgio cantando “O Pão”: Meu carro é vermelho/ não uso espelho pra me pentear/ botinha sem meia/Ele é o Pão/É o bom/é demais… quando chegaram Vilmar e Zélia, destacando-se a beleza do casal já que o exímio dançarino, cabelos estufados cobrindo as orelhas, rebeldia pra época, era conhecido como o Alain Delon dos Cabarés e Zélia, uma das mais belas e delicadas mulheres de Caruaru, tanto pela beleza física como pela gentileza e suavidade na voz. Eram noivos e Vilmar só a levava às festas familiares, já nos inferninhos da cidade era disputado pelas Kengas ao ponto de nem pagar pelo quarto usado. Na disputa para se saber quem era o melhor dançarino, confrontava com Reginaldo Ferreira, o Nego Regi, sujeito elegante, bem afeiçoado e bastante exibido, rodopiando com a dama pela sala apertada da Boate Shell de Teca Jacaré. Os dançarinos se respeitavam, mas as quengas que estavam nos braços deles acabaram puxando os cabelos, o pau cantou e a polícia chegou com dois meganhas em um Jepp herdado da Segunda Guerra Mundial. As raparigas foram ouvidas e liberadas, enquanto os dançarinos se escafederam estrada a fora e indo beber no Beleza da Rosa. Tavares Neto, em início de carreira, testemunhou e noticiou a briga no randevu omitindo os nomes dos amigos, mas entregou os codinomes das raparigas.
Paulinho Bolinho e Guaraná era apaixonado pela aniversariante, mas viviam naquele namoro de acaba e renova por várias vezes e a discórdia se dava porque a moça, muito pudica, de beleza morena, não permitia as ousadias libidinosas do namorado, que queria acariciar seus seios, mesmo que protegidos por sutiã Quenga-de-coco de pano grosso e apertado ao corpo, parecendo cilha de cavalo brabo. Mas, lá do seu jeito, se gostavam. Certa feita, tentando ultrapassar a linha divisória da proibição, Paulinho teve a ideia de ir ao Cine Irmãos Maciel assistir a filme na sessão da tarde, quando sentariam na área reservado ao sarro, nas últimas cadeiras onde os namorados nunca assistiam ao filme, mas sarravam no escurinho do cinema.
Pois, bem.
Paulinho esperou a namorada na entrada do cinema e a decepção se estampou em seu rosto ao ver a namorada e a “Sogra Empata Sarro” que não arredava o pé da vigilância permanente, severa. De propósito, sentaram no meio do cinema, que tinha um defeito de engenharia e quem sentava no centro não conseguia ler a legenda do filme. Foi atrás de uma cadeira ocupada por um volumoso espectador que Paulinho colocou a sogra que não viu nada do filme Dio, come ti amo! Pegando na mão da namorada, e só, Paulinho observou que a jovem estava de sutiã novo, renunciara ao “Quenga-de-coco”, e vestia um de pano fino, próprio para gostosas e excitantes carícias.

  • Maldita Sogra dos infernos. – disse baixinho, murmurando e obtendo o sorriso da namorada que percebera o olhar libidinoso do namorado para seu busto. Na saída do cinema, foram tomar sorvete na Zíngara para aliviar o calor e a decepção. Marleine, a organizadora da festa, passou a noite dançando com paquera amigo de Paulinho e até trocaram algumas leves carícias com rosto escorregado pelas faces e respiração ofegando. Foi aí que um irmão da aniversariante, fiscal moral da festa, cochichou no ouvido do pai que o tal Paulinho estava dançando “armado”. Não que o rapaz portasse na cintura revólver ou faca, mas, dançar “armado”, era exibir a “Doida” volumosa por baixo das calças em excitação visível. Oxente! O sangue do dono da casa quase espirra pelas narinas, ergueu-se de supetão de sua poltrona e de dedo em riste gritou:
    • Cabra safado, respeite minha família e ponha-se daqui pra fora! – isso no exato momento que o som terminava, instalando-se silêncio sepulcral. Paulinho imaginou correr, mas, obstruindo a porta, a sogra com as mãos segurando as banhas da barriga, braços em forma de hastes triangulares, zunia fúria pelos ouvidos e olhos banhados em sangue. Não tendo por onde fugir, optou abrir porta de quarto defrontando-se com a cunhada em trajes íntimos, só de calcinha. Paulinho fechou a porta atrás de si, deu um beijo no rosto da cunhada e pulou pela janela em desabalada carreira.
      O amigo Taiada, vendo-se sozinho e alvo da fúria daquela família, também se escafedeu ladeira abaixo pelos becos da Rua Preta. Daí lembrou-se que Paulinho combinara jantar no Restaurante Mestre Vitalino, atendidos pelo gentilíssimo garçom Fernando, depois de tomarem umas e outras no bar do Peixe de Dona Ana e, pra lá foi encontrar o amigo. E riram do perigo que passaram novamente, posto que, em dias anteriores, os dois se meteram em confusão no Bar do Cortiço, ali na apertada Rua do Norte. Os clientes eram servidos por garçonetes de minissaias e seios à mostra, em topless, o que demonstra que Caruaru sempre esteve à frente de seu tempo. Quando a garçonete Marrieth servia a mesa de Ruisinho Rosal era bolinada pelo gordo com a ponta do dedo acariciando o bico do peito da moça e ainda cantarolava o Bilu, Bilu. Já o Jucieu, hoje dentista afamado e exilado nas terras de Jorge Amado, ousou beijar o seio da moça dizendo ser para tirar o gosto do ácido limão. O dono da boate não gostou, foi tomar satisfação e os “subversivos da moral e dos bons costumes” foram jogados à rua pelos seguranças. Se tivessem seguido os conselhos do sábio filósofo sueco dos aveloses, Sir Solrac Oriehnip não teriam se metido em confusão: “Principalmente, as raparigas, merecem respeito pelo trabalho humilhante que desempenham”,
      Vê se pode?!

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