Em cima da porteira!

Coluninha indiscreta por Carlos Pinheiro.

O amigo José bezerra, o Bodocó, perguntou sobre a Coluninha neste momento viral de angústia, expectativa e muita preocupação. Na conversa, deixa a gravura sertaneja de amigo bodocoense cavalgando porteira, sem saber se sai de casa e vai trabalhar ou se fica recluso coçando o saco, perturbado por tantas informações contraditórias de autoridades quando ninguém sabe se é para ficar em casa e se defender da praga mundial imposta pela corona vírus, ou se devemos enfrentá-la com carreatas e buzinaços, como se passeatas e carreatas servissem para alguma coisa. Com passeatas só se muda o endereço do bordel em cidade do interior, e mais nada.
Daí imaginemos o matuto sertanejo, amigo do Bodocó, sentado sobre a porteira com a mãe dele, de um lado, dizendo:

  • Filho, volta pra casa e te escondes embaixo da cama, senão o vírus vai comer tua moela. Do outro lado, o pai dele, separado da mãe por motivos familiares em disputa por cerca que avançou dois metros para um lado na imensidão da caatinga, invadindo o outro latifúndio improdutivo. Porém, no meio da cerca tem um pé de imbu florido que só peito de moça adolescente.
  • Filho, tu és mais macho que cearense na tevê, domas boi brabo, enfrentas a seca com destemor, vai agora temer um tal de vírus que ninguém vê e que voa pelos ares que nem fantasma de assombração? Desce daí e vem plantar macaxeira que tá chovendo no sertão e o povo tá alegre que só festa de forró. O amigo sertanejo balança na porteira da dúvida, e não sabe se desce para o lado esquerdo da mãe, que torce pelo fracasso da roça com raiva do pai, ou se enfrenta o vírus pelo lado direito do pai boquirroto, que sobrepõe a economia sobre a doença, correndo o risco de perder a roça por mortos sobre a plantação.
    • Meu Deus, meu Deus! Dai-nos uma luz, ilumina o caminho a seguir, pois, pelo jeito, vamos todos perder a roça, qual seja o lado que a porteira abrir. Ou morreremos pelo vírus ou de fome – bradam o pai e a mãe sem saber o rumo a tomar, mas sabem querer seus filhos vivos, protegidos sobre suas saias, ou calças, e labutando na macaxeira.
      “São tantas as emoções”! (Idiota, volta ao texto. Não é hora do Roberto Carlos) É meu censor moral. Um chato.
      Pois bem.
      Sentado na porteira, sem saber pra que lado a abrir, tem do lado esquerdo a torcida que a economia se lasque e volte a dominar a roça, mesmo em cenário do caos, desde que seja em seu favor. Do lado direito da porteira, tem defensores de Deus humano salvador da roça, mesmo que seja um sargento africano que fala à nação como se grita com ignorantes, dizendo: “Sigam”, mas não aponta um horizonte seguro, com o bem estar de todos, promissor, sem mortos. E, no meio da questão, ouvem-se vozes de doutores divididos dizendo, sigam, não sigam. Ou lasquem-se ou não se lasquem eis a questão. E para que lado abrirá a porteira o amigo do Bodocó?
      Contudo, mandacaru fulorou, a chuva chegou, arrancou a cerca da discórdia e o imbuzeiro botou frutos amarelos, saborosos, para todos os lados e todos colhem sem se olhar, com intolerância, com medo, mas sabedores que a fruta adoça as mágoas, aplaca o ódio, e fazem as águas seguirem seus cursos independentes de divergências. (Eita. Estás profeta!) Vai te lascar.
      Melhor seguir os conselhos do renomado filósofo sueco dos aveloses, Sir Solrac Oriehnip: “Na dúvida, aperte o pitôco do meio, e deixe a porteira gemer pra o lado que o vento empurrar”.
      Vê se pode?!

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