Brasil dos novos tempos, o hino

Essa semana temos visto a repercussão do “pedido de cumprimento voluntário” do ministro da Educação para que se faça execução do hino nacional nas unidades escolares do Brasil, além de filmar os alunos e bradar o slogan de campanha do Presidente da República.
Como nacionalista, porém apartidário, achei necessário refletirmos a proposta de outros ângulos. Como um operário da educação, eu daria um passo atrás. Antes de cantar o hino, fazer pose para filmagem e dizer qualquer slogan, precisamos potencializar o fazer educacional em sala de aula.


Me refiro – por exemplo – a estudar o nosso hino. Explicar aos alunos que a melodia veio antes da letra, construída num versejar poético bonito, nos idos de 1909, momento no qual éramos um país de predominância rural e infelizmente analfabeto, porque já naquela época a educação popular não era prioridade no orçamento dos governos da República da Espada. Quem aprendia algo em escolas era para “obedecer” e nunca “questionar”.
Algumas frases devem ser debatidas para entendermos o contexto. Exemplo: “deitado eternamente em berço esplêndido”…a mim passa a imagem de alguém absolutamente omisso no trato social, que se esconde da permanente luta para construção de uma sociedade melhor, e isso não é bom.


Antes de cantar, que os professores levem para sala dicionários, e os alunos conheçam o significado de termos como plácidas, penhor, retumbante, fúlgido, impávido, garrido e outros mais, vocábulos que estão na letra e que grande parte da população não entende. O hino inicia-se que “ouviram de um povo heroico”…mas que povo? Senhores de engenho, escravos e mineradores compunham o Brasil imperial, que não tiveram parte nos momentos de decisão política, como o ato da independência proclamada por Dom Pedro I, ou Abolição da Escravidão pela princesa Isabel, bem como o golpe militar contra a Monarquia para impor a República, ato no qual o povo apenas assistiu “bestializado”. Revolução Pernambucana, Balaiagem, Sabinada, Cabanada…o povo tentou transformar, mas foram esmagados e seus líderes mortos.
“Façam o ato, antes que o povo tome parte” foi assim o trato com a sociedade. Que se repetiu em 1930, alçando Vargas ao poder. E quando militares de metralhadoras nas ruas, deram o golpe em 1964, impondo 21 anos de ditadura. As minorias no poder deram as cartas e impuseram metodologias, nós que somos a maioria enquanto povo apenas obedecemos, “bestializados”.


Filmar os alunos? Claro, vamos filmar também as instalações precárias da maioria das escolas públicas que dependem unicamente de verbas dos governos. E a rotina de professores mal formados, mal remunerados, desestimulados, e que diariamente assumem a missão de ofertar ao país uma educação de qualidade, sabe-se lá como. Na avaliação internacional sobre qualidade da educação pública, nossa posição é um vexame vergonhoso. E o slogan do Partido Social Liberal? Aí não, educação é apartidária, ou seja, a sociedade democrática não tem obrigação de fazer propaganda de absolutamente nenhuma religião, time de futebol, escola de samba, tampouco partidos, seus membros, candidatos, ou ideologias. Se o marqueteiro que criou essa frase quer viralizar sua criação, pegou o bonde errado.


Como sugestão, é mais frutífero que o senhor ministro da Educação promova um encontro nacional para ouvir os fazedores educacionais, alunos, pais e coordenadores pedagógicos, construam um plano nacional para cuidar do processo que tem altos índices de evasão escolar, gravidez na adolescência, repetências e outras mazelas, e estabeleça um modelo para melhor formação docente e capacitação qualificada e gratuita, pois os nossos professores atendem uma clientela de 49 milhões de alunos diariamente, sendo dois milhões e duzentos mil profissionais na educação básica, mas apenas 350 mil no ensino superior, um fosso entre a partida e a chegada no fazer educacional.


Não dá para gerenciar educação na base da “canetada”, mas sim e unicamente pelas vias do diálogo, amplo, desarmado, sem fanatismo de qualquer natureza, e concentrado em ofertar um sistema no qual educação seja reconhecida como a semente da qual frutifica a dignidade humana. Eleitos assumem o compromisso de potencializar o que está funcionando bem, e corrigir as mazelas que impedem nosso progresso.
Os governantes pensam, nós também. Os governos existem para a sociedade, e não o inverso.
Que nos deem o motivo de cantarolar o nosso patriotismo e sair todos visualmente bem nas imagens.

Eis o Brasil dos novos tempos para todos!

Prof. José Urbano

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