Coluninha indiscreta!

Por Carlos Pinheiro

Naquele momento final do São João de Caruaru a dúvida de toda vida ainda o assaltava sem decifrar se se apaixonara pelo jeito carinhoso e sensual que penetrava os olhos nos seus, ou se pela leveza do corpo aconchegante que se encaixava num xote, sentindo contornos de coxas no espaço escondido do corpo. Ninguém dançava qual ela. Era como se energizasse o corpo por leves picadas de abelhas, retorcia com a música, apertando o peito no seu, afastando o rosto para misturarem o olhar, em beijo suave no Cenário da música de Petrúcio.


Conheceram-se na adolescência de quatorze, quinze anos, não tinham certeza, só sabiam que se apaixonaram na primeira quadrilha de São João do Colégio Estadual de Caruaru. Um cavalheiro a frente servia para sentir que nenhuma outra dama se encaixava tão bem em seu corpo magro como o dela. Estudar, jogar no time da classe, enquanto ela tocava tarol na banda do colégio, disputadíssima pala perfeita harmonia com que manejava a percussão. Fez de tudo para introduzir o instrumento numa bandinha de forró pé de serra, mas não obteve consentimento e a ideia maluca serviu para codificar a comunicação do casal eternamente apaixonado:

– Vamos tocar tarol, à noite? – significava dançar um xote em algum barzinho da periferia. E assim se exibiram como exímios dançarinos pelo Palhoção de Zé Lúcia, nos palcos de Marrone com o Trio Nordestino se amostrando pela competência da boa e verdadeira música nordestina na voz de Lindu. Também dançaram nos Clubes sociais do Intermunicipal e do Comércio F. Clube, e até no Caroá de reputação suspeitosa para moças de família, dançaram forró pesado com Camarão tocando no início de carreira, tendo o bueiro da indústria revestido de balão luminoso como testemunha da chegada do Trem do Forró, e do sorriso ao ver refletido rosto na bacia ao pé da fogueira, na dúvida se Caruaru era nevoeiro ou só fumaça, cidade encandeceste.


Às vezes, em longas noites de festa, ela se excedia na caipirinha e, para melhorar à tontura, pedia para dançar com o olhar cerrado, dizendo enxergar o coração do amado. Ele compreendia, e rodopiava pelo salão até ela melhorar e voltar a olhar para o céu apontado a estrela que dizia ser dela. E sorriam. E dançavam. Mas, naquele último dia do Maior e Melhor São João do Mundo, quando das fogueiras só cinzas frias pela garoa da madrugada relutavam ainda fagulhar, foram dançar a última música sobre pedra no Monte do Bom Jesus, com o dia quase surgindo por detrás das serras. Aconchegou-se em seus braços de maneira dolente pelo final da festa, sentindo o calor da fogueira terminal cujas cinzas cobriam as últimas brasas em frente à igrejinha. Cochichou em seu ouvido, chamando-a de meu amor, perguntando se estava cansada, mas, ao afastar seu rosto percebeu que sua querida acabara de falecer, terminando longa história de amor, de São João e de dança.


Com lágrimas chiando sobre brasa retirou o chapéu de palha e o lançou à fogueira quase apagada, mas pelo mistério do inacreditável, teve o sopro de Santa Luzia, padroeira do Monte, feliz por terem se lembrado dela, e a fogueira avivou, as chamas ressuscitaram lançando ao espaço fumaça em forma de partituras musicais seguindo na direção da estrela que dizia ser dela, enquanto a sanfona silenciava, a zabumba abafava e o triangulo ecoava os últimos trinados. Nunca mais brincou o São João, nunca mais dançou, nunca mais usou chapéu. Também, os passos já eram lentos.


Vê se pode?

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